sábado, 10 de junho de 2017

Carnavalizando o discurso institucional

Memes são exemplos modernos da carnavalização do discurso (Fonte: ADNEWS).

A carnavalização das organizações, proposta pelos estudos do Grupo de Pesquisa ECO-UFRN, está amparada nos estudos de Bakhtin sobre a carnavalização na Idade Média. Esse gênero é apontado pelos pesquisadores da UFRN como discursivo, e em tons cômicos ressignifica discursos institucionais, ganhando um enorme espaço na internet, principalmente nas redes sociais. 

 O que deu origem ao termo bakhtiniano Carnavalização, foi o Carnaval, uma festa popular e pública que data antes mesmo da Renascença. O carnaval extrapolava as meras denotações festivas, e oferecia à população uma visão do mundo e das relações humanas fora daquelas disseminadas pela Igreja e pelo Estado. Essa era a época do ano em que as pessoas podiam desafiar os discursos hegemônicos e sérios  dessas instâncias de uma maneira cômica, utilizando-se de paródias que “profanavam” a ideologia oficial da Igreja.

 Como gênero do discurso, a chamada carnavalização mostra uma apropriação cômica do público sobre os discursos institucionais. Entre suas particularidades, estão a linguagem oposta à "séria" e formal apresentada pelas organizações, a utilização de palavras “proibidas” pela comunicação oficial e a apropriação dos discursos institucionais com o intuito de subversão do sentido proposto pela instituição. 

 As redes sociais possibilitaram que, como na Idade Média, as pessoas de fora da organização carnavalizassem seus discursos. Esse ambiente virtual proporciona um espaço para troca de informações de maneira coletiva, sem censura e de forma anônima, o que já acontecia na Idade Média no período do Carnaval. Um exemplo dessa apropriação e subversão dos discursos organizacionais são os memes, já que eles se apropriam da imagem (de pessoas ou organizações) e de suas palavras com o intuito de tornar cômico e modificar o sentido daquilo que é proposto pelas fontes originais.

A experiência da carnavalização das organizações vem ganhando cada vez mais espaço no século XXI com os memes e as redes sociais. Um conceito de imagem, vídeo relacionados ao humor a partir de algum assunto real e popular no momento podem ressignificar aquele significante, assim como em Bakhtin. No Brasil, um dos principais exemplos dessa carnavalização das organizações são de cunho político. Ao acessar as redes sociais, encontramos diversas páginas e perfis criados com a intenção de desconstruir a ideia já formada.

Operação Carne Franca rendeu memes (Fonte: Twitter)
A operação “Carne Fraca”, onde as maiores empresas do ramo — JBS, dona das marcas Seara, Swift, Friboi e Vigor, e a BRF, dona da Sadia e Perdigão — são acusadas de adulterar a carne que vendiam no mercado interno e externo. Com o escândalo estourando na mídia no dia 17 de março, Polícia Federal afirmou que grandes frigoríficos de todo o Brasil pagavam propina para vender produtos vencidos e até carne moída com papelão. A partir desse escândalo, diversos memes surgiram ironizando a forma como, especialmente, a Friboi era vista no mercado (do slogan, “carne boa tem que ser Friboi”) e como ela passaria a ser vista agora.

Por diversas vezes, escândalos políticos surgem dessa quebra de expectativa por meio da imagem de uma pessoa ou empresa, o que faz com que muitos dos memes na internet sejam criados a partir destes casos. Além disso, muitos dos casos noticiados parecem absurdos aos olhos de quem lê, o que aproxima ainda mais a possibilidade de enxergar um fato negativo em algo engraçado, o que podemos associar novamente ao termo “carnavalização”, já que a festa nos lembra brincadeira e diversão.  

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