terça-feira, 20 de junho de 2017

Entrevista: A organização e a fala autorizada

Quando falamos sobre Comunicação Organizacional, um termo recorrente é o de fala autorizada. Na tentativa de acompanhar a sociedade contemporânea, que exige cada vez mais eficiência e velocidade nas organizações, a “fala autorizada” passa a ser um dos principais elementos de uma das dimensões da Comunicação Organizacional: a organização comunicada.

Nos dias de hoje, a demanda cada vez maior por uma quantificação, planejamento, e especialmente legitimidade dentro das organizações, faz da organização comunicada uma dimensão que compreende os processos formais de comunicação presentes na organização, denominados “fala autorizada”.

A “fala autorizada” tornou-se um recurso cujo objetivo é organizar a identidade da organização de tal maneira que ela seja “atrativa” e guiada para o auto-elogio.  Entretanto, a “fala autorizada” também tende a reduzir a complexidade dos processos comunicacionais, tornando-os cada vez mais planejados e unilaterais, visto que desconsideram a organização comunicante, ou seja, a relação que a comunicação tem com sujeitos e os sentidos que essas relações produzem.

Para entender melhor a reverberação da fala autorizada nas organizações, durante a Associação Brasileira de Pesquisadores em Comunicação Organizacional e Relações Públicas (Abrapcorp) entrevistamos Rudimar Baldissera, atual líder do Grupo de Pesquisa em Comunicação organizacional, Cultura e Relações de Poder.

Graduado em Relações Públicas pela Universidade de Caxias do Sul, especializado em Gestão de Recursos Humanos pela Universidade do Vale dos Sinos, Rudimar Baldissera foi entre os anos de 2010 e 2012 o vice-presidente da Associação Brasileira de Pesquisadores em Comunicação Organizacional e Relações Públicas (Abrapcorp). Baldissera possui experiência na área de Comunicação, atuando principalmente em  relações públicas, comunicação pública, estratégia, comunicação organizacional, identidade, imagem-conceito, cultura, relações de poder e comunicação turística.

O que a organização esquece quando apenas se preocupa com sua fala autorizada?

Então, quando se pensa na fala autorizada ela é muito importante. Pois de uma forma ou de outra, ela procura organizar um pouco dos sentidos, ela procura dizer de um lugar de si. Se pensar nos termos organização, como eu quero ser vista? O que eu quero mostrar de mim? Quais são meus aspectos?
Podemos pensar até em uma perspectiva de fala autorizada estratégica. Porém, se eu observar apenas a perspectiva do autorizado e do estratégico, eu perco todas as outras nuances de comunicação. Então como que a comunicação se dá no sentido mais horizontal? O que as outras pessoas, que sequer são públicos no sentido da organização, um público de interesse da organização, dizem sobre a organização? E como eu vou pensar muitas vezes esses dizeres dos outros nos processos de comunicação formal e autorizada? É preciso pensar na comunicação no sentido mais amplo e mais complexo, não significa que a fala autorizada não seja importante, mas ela não é a única fala e não é necessariamente a mais importante. Ou seja, o que os públicos querem? O que interessa? 
Se eu vou falar com os empregados, é preciso compreender sobre o que eles querem, o que eles querem saber, o que eles gostariam de conhecer, que informações são importantes para eles. Caso contrário, posso estar correndo risco de estar falando coisas para ninguém, porque não interessa.
 Por exemplo, posso pensar em um jornal para os empregados, mas eles não leem. Isso se dá devido ao fato de que eles não se veem não se reconhecem, porque não tem interesse, pode-se ter várias razões.  Senso assim, como eu penso nesse processo? Como eu trago esses públicos para dialogar com a comunicação? Como eu desperto o interesse deles? Isso não está necessariamente na fala autorizada.

Quais as consequências disso para uma instituição?

Além da desmotivação, há desinformação, e resistência, as pessoas não se sentem pertencente àquela organização, pode estar gerando altos níveis de sofrimento e desigualdade.

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