sexta-feira, 16 de junho de 2017

Reduzindo complexidades


Redução da complexidade. Você conhece esse termo? Ele é bastante utilizado quando se fala das organizações a partir de uma perspectiva sistêmico-comunicacional. Como nova forma de observar e analisar as entidades coletivas a partir da abordagem de Niklas Luhmann, esse olhar sobre o tema traz novos sentidos para o todo e suas partes, assim como o sujeito e o objeto.

Uma perspectiva sistêmica

Em ‘A perspectiva sistêmico-comunicacional das organizações e sua importância para os estudos da comunicação organizacional’, o docente da Universidade de Brasília João José Azevedo Curvello menciona os estudos de Maturana e Varela para explicar o conceito de organização. No texto, ele afirma que os autores romperam com a ideia tradicional de enxergar as instituições como sistemas abertos e permeáveis a influências externas. Assim, o professor sugere pensá-las como sistemas fechados, em um processo de autoconstrução (autopoiese), capazes de construir suas identidades e de se diferenciarem do ambiente externo. Ainda, aqui, não há mais a visão hierárquica de partes que compõem um todo, mas microssistemas que possuem um entorno comum.


E quanto à comunicação? Segundo essa visão crítica, é ela a responsável por dar forma e conteúdo ao todo, provocando movimentos circulares que definirão a sociabilidade da organização. As práticas comunicativas, de forma geral, tornará determinadas ações mais prováveis de serem realizadas que outras – determinando, assim, todos os eventos da instituição. Ao selecionar o que será informado, difundido e recepcionado, o processo de comunicar é um dispositivo fundamental para normalizar as relações sistema-meio.

“Antes de serem formadas por pessoas, as organizações são constituídas de comunicação, que pode ser entre as pessoas, mas que ganha vida própria e reforça a autopoiese e a construção de sentido e de identidade organizacional”. (CURVELLO, 2009)

Reduzindo complexidades


Um termo interessante do trabalho de Maturana e Varela é o ‘redução da complexidade’. Para eles, a complexidade e a diferenciação social são pontos centrais para se entender as organizações. E, como característica intrínseca dos sistemas organizacionais, a habilidade de reduzir suas complexidades se desenvolve para selecionar aquilo que tem sentido para o sistema. Seja reduzindo a complexidade do mundo em processos laborais mecânicos ou desconsiderando complexidades intrínsecas ao comportamento humano no dia-a-dia de trabalho, reduzir a complexidade aumenta a determinação dentro de uma empresa, como explicam Damacena e Hohendorff:

“A comunicação tenta reduzir a quantidade de indeterminação no mundo, visando mantê-la num patamar que permita o constante aumento de determinação. A ideia é que pela comunicação seja possível atenuar a complexidade típica do mundo, caracterizada pela falta de transparência. “Graças à redução de complexidade o mundo se torna apreensível, manipulável”. (DAMACENA; HOHENDORFF, 2016)

Um dos exemplos comuns de reduções de complexidade nas grandes empresas diz respeito à forma como as instituições tratam seus constituintes. A designação dos componentes de uma organização como meros trabalhadores, proletários, operários ou recursos humanos são simplificações utilizadas pelas instituições que, de certo modo, reduzem o estatuto humano e modificam os resultados esperados. Para Raquel, ex-membro da corporação alimentícia Mc Donalds, os termos usados pelas autoridades durante seu tempo de trabalho revelaram uma diminuição dos demais sujeitos. “Essa diminuição simbólica, que é apenas uma das formas sentidas por nós, foi um dos fatores pelos quais eu decidi deixar a empresa”, contou.

Nesse sentido, é válido questionar sobre as consequências das escolhas metodológicas reducionistas utilizadas pelas organizações. Ao enquadrar o mundo em uma tela pequena, como um filtro, corre-se o risco de deixar escapar a pluralidade intrínseca aos indivíduos que pode ser de grande valia para novas possibilidades dentro da instituição. Como Carvalho explica no trecho abaixo, retirado da obra 'A relação sujeito-trabalho-organização na contemporaneidade e a psicanálise: porta de saída ou pacto com o diabo?', é relevante:

"destacar que a ética da psicanálise é a ética do desejo humano, que por natureza é subversivo, e é por meio deste olhar que devemos caminhar, evitando a tentação de articular qualquer “saída” para os impasses da existência em sociedade, cuja abordagem deve partir do sujeito em sua demanda singular." (CARVALHO, 2008)

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